sábado, 3 de abril de 2010

- a vida e seus eternos desencontros -




Só gostei do tal escrito (...)

“ E agora que eu tenho certeza que você não é aquele, eu me descubro não me importando nada pra tudo isso.
Porque você não é perfeito, mas o homem idealizado não tem seu mau humor repentino que eu gosto tanto e que vez ou outra também me deixa com ele.
O mala do cara dos sonhos não tem o desenho da sua boca.
O homem perfeito é um puta de um chato com seus cds cults e cartazes de filmes europeus pela sala.
Você com aquele seu vinil sertanejo é muito mais divertido, porque você me faz rir quando fecha seus olhos e canta, tocando seu violão imaginário.
Porque o homem perfeito é cheio de estripulias sexuais, mas eu detesto estripulias e adoro nosso jeito intenso de fazer amor cheio de inconformismos com a intensidade.
Eu sonhei sim com esse cara, que me levaria tomar sopas quentinhas em lugares com jazz e olharia para mim a noite toda achando que maior diversão no mundo não poderia haver.
Mas você com esse seu jeito só seu, de não me permitir saber o que esperar de você, me faz te odiar tanto e querer tanto a sua atenção. E me faz querer tanto você daqui a pouco, porque você não enjoa. Você me cansa demais mas não enjoa.
E quando você me cansa eu enfio a minha cabeça no seu peito e peço a Deus para que eu nunca desista de te odiar tanto assim, porque não pode existir ódio mais cheio de borboletas, notas musicais e passarinhos azuis.
Eu quero sim te matar, porque você tem uma mania surda de responder todas as minhas perguntas com um “ãhhh?” enjoado, e eu quero te socar porque você já descobriu tudo o que me irrita e gosta de me ver assim. Mas quando qualquer outra coisa no mundo me irrita, eu lembro que eu tenho você pra me fazer sentir essa raiva sua de sitcom inteligente.
Não somos uma dupla melada, mas duvido que tenha alguém que duvide do que sinto por você. Quer dizer, você dúvida as vezes, mas como eu, nessas horas você também é louco. E o homem perfeito teria a maior paciência do mundo em me curar dessa loucura e você tem a maior paciência do mundo em aumentar a minha loucura, desde que ela seja sensata.
Mas eu preciso da minha loucura para continuar sendo eu e eu com você, que pode um dia quer largar tudo para morar no sertão.
Sua cara de despretensioso para a vida, enquanto eu coleciono rugas, berros e inchaços. A sua cara de que “não é comigo” vai muito bem com a minha máscara da agressividade que acredita que tudo é comigo.
Nossa dança num baile de máscaras é eterna, porque quando eu peso a mão, você me faz voar. E quando você perde o chão, eu te dou um soco na cabeça pra ver se achato a sua alegria pra caber minha.
E você cabe de sobra na minha intensidade e acaba que a minha neurose fria é o quentinho do seu lado.
E o homem perfeito tem um beijo profundo e ritmado, que de tão melado me deixa saciada de um jeito que encerra o meu desejo. E você tem um jeito caótico, um beijo cheio de surpresas, que faz eu te sentir dentro de mim só de você encostar sua boca na minha. E eu nunca me dou por satisfeita e acabo achando que a gente ainda nem deu o nosso primeiro beijo, o que me causa uma ansiedade de paixão inicial que não deixa o peito relaxar.
E o homem das minhas ilusões me deixaria relaxar numa enorme cama amorosa e acordaria inúmeras vezes para me ver dormir abraçada a toda a certeza que ele me daria com apenas um segundo de olhar. Mas você não, nós dois dormindo deve parecer uma coreografia durante a noite, deita de bruços, abraça o travesseiro, mexe as pernas, procura o gelado da cama, depois vira um pouco de lado e eu acordo achando que ainda tenho muita coisa pra te falar, ainda confusa com meus pensamentos, mas é só você sorrir e pronto, não vai ter sorriso maior que você arrancaria de mim.
É cansativo viver sem vírgulas e só coloco vírgulas teatrais para você não enjoar de mim.Te amar não é fácil, é quase o anti-amor. É muito quase como se você nem existisse, porque só o homem perfeito mereceria tanto sentimento.
E fazendo isso, eu só consigo te querer mais ainda. Porque você enterrou meu sonho aprisionado pela perfeição e me libertou para vivê-lo.
E a gente vai por aí, se completando assim meio torto mesmo. E Deus escrevendo certo pelas nossas linhas que se não fossem tão tortas, não teriam se cruzado.”

(Tati Bernardi)

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